
No alto do campanário há um sino.
Em todo o campanário o único som que se ouve é o do sino. Toca muito, e muito alto por todas as razões. Hoje toca porque há um casamento. Já são raros por esta zona, e por isso hoje soa com maior intensidade, como se percebesse o quão importante esta união é. Não porque os noivos sejam ricos ou importantes – nada disso, por esta terra não há gente rica ou influente. Toca assim porque percebe que a seguir ao casamento podem chegar crianças. Pequenada traquina que certamente subirá até ao alto do campanário para se pendurar nele ou para se esconderem dos preocupados pais. Mas isso será mais tarde.
E lá continua a tocar a “sineta”, como os mais experientes lhe chamam, num tom que denuncia que ao som que antes achavam insuportável agora dedicam carinho. Mas para chegar ao carinho é preciso viver longos anos a ouvi-lo.
E é por isso que este campanário é tão especial e todos os que cá moram o são também – entendem-se em surdina, como mais ninguém o consegue.
No alto do campanário há um sino, há uma sineta que acompanha estas gentes como os anjos da guarda o fazem.
No alto do campanário há uma sineta. Toca porque chove e porque faz sol. É a sineta destas gentes.